Dedicado a Natália de Andrade

1982, brilhos e feixes de luz com múltiplas cores, um candeeiro lustroso brilhando cristal, um olhar televisivo que se aproxima devagar, em crescendo, um apresentador, Júlio Isidro, que anuncia o que se segue, um ligeiro equívoco no título que assegura que tudo o que está a acontecer é coerente e se justifica, uma plateia de tintins e milus florescendo de negro que aplaude entusiasmada, um piano que espera em antecipação, braços junto ao corpo, que prepara um tango trôpego. De repente, começa-se a sentir o rufar imaginário dos tambores, em crescendo. O apresentador sai de cena, o plano da câmara que se enche e aproxima, ouvem-se os primeiros acordes seguros de piano, a convidar, mão estendida no ar à espera. Ei-la. No centro. Natália de Andrade. Surgindo do meio da neblina dourada dos holofotes, Lançando os braços para o alto. Cantando perante a chuva de pétalas que lhe vai caindo na boca. A constante chuva de pétalas que lhe vai caindo na boca.

Tiago Madaleno 

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Inês Moreira

Oportunidade: residência artística que toma o nome dos materiais de “entulho” de uma serralharia mecânica especializada em obra metálica de grande sofisticação técnica. Premissa: o apogeu kitsch celebratório do canto e figura de Natália de Andrade, cantora lírica amadora catapultada por Júlio Isidro para o estrelato da RTP nos anos 80, falecida e caída no esquecimento. 

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Processo: Tiago Madaleno parte do episódio televisivo com Natália de Andrade para criar um memorial itinerante ao performer amador. Apropriando o espaço da residência artística na serralharia, com ferramentas e técnicas artísticas avança prolífica e minuciosamente num processo de permanente translação e metamorfose de sentidos, símbolos e formas. O processo interpretativo – pictórico e gráfico – pelo qual produz desenhos, recortes, tipografia, pinturas, modelos, avança na permanente transformação de formatos. O processo é claramente dissonante dos processos de síntese com que engenheiros e arquitectos fazem desenhos e protótipos a produzir industrialmente.

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Assim, avança um desenho, que é uma pauta musical, que é um tipo gráfico, que é uma composição visual, que é um libreto, que é uma performance, que é um coreto, que é uma estrutura corporal, que é recortada em alumínio, que produz sombras, que deixam cair luz sobre o rosto do performer, que improvisa, que canta, que celebra e vive o seu momento. Tal como Natália de Andrade.