Igor Jesus | STROBE

 

 

Strobe

A criação visual contemporânea, num momento de acentuação da digitalidade enquanto regime estético-político, tem vindo a problematizar a tensão entre materialidade e desmaterialização, questionando o desaparecimento do corpo, endémico à codificação digital da matéria. Esta tensão coloca-se de forma particularmente aguda no campo da imagem em movimento, em que o desaparecimento do celulóide se tem traduzido numa necessidade de pensar as implicações estéticas e políticas de um medium que cada vez mais assume uma forma imaterial e codificada. Este questionamento traduz-se frequentemente em práticas artísticas que procuram re-situar o corpo no campo visual e político, ora tornando visível a forma como os dispositivos de criação de imagem continuam a produzir corpos, ora demonstrando como os próprios corpos que supostamente se desmaterializam produzem, também eles, imagens que geram efeitos materiais, afectivos e políticos. Através destas práticas, o corpo (individual e político) reinscreve-se na e através da presença material do próprio medium.

O poder contemporâneo exerce-se, também, por via de uma dimensão escópica e corporal, que se cruza com processos de racialização, de género e sexualização, através dos quais o corpo é entendido como desejo e valor, mas também desperdício ou desvio.

Igor Jesus

 

Miguel Mesquita

Dando seguimento à sua investigação sobre o domínio dos dispositivos de captação e criação de imagens na apropriação, exploração e colonização do corpo, a proposta que Igor Jesus desenvolve na residência No Entulho da Artworks parte das experiências fotográficas que o artista Checo Miroslav Tichý, realizou entre o início de 1970 e meados de 80 utilizando câmaras artesanais. De carácter frequentemente voyeurista, as fotografias de Tichý traduzem uma obsessão com o corpo feminino, onde o comportamento e postura das protagonistas é alheio ao dispositivo que as capta. É na transformação da pose das acções quotidianas em realidades esotéricas e, simultaneamente, fetichistas que Igor Jesus explora os formatos e processos de obsessão e capitalização dos desejos do corpo, manifestados em lógicas de sedução, associando-os à instantaneidade das imagens e à sua expressão mediante mecanismos de visualidade.

Na exposição, Igor Jesus faz uso de uma linguagem associada à técnica do processo fotográfico para estabelecer um paralelismo fenomenológico entre uma postura do corpo condizente com o discurso visual da fotografia, e os procedimentos de expressão corporal nos espaços que se tornaram as arenas contemporâneas de sedução. O Flash de luz que absorve o espaço de exposição é, na realidade, um vídeo de uma strobe, uma lâmpada utilizada em discotecas sintonizada com um ritmo ou frequência sonora, cuja intensidade luminosa congela imagens sucessivas dos corpos em movimento estabelecendo dinâmicas de intimidade à medida que o grau de visibilidade aumenta ou diminui. Ao mesmo tempo, fotografias de trabalhadores da fábrica a executar tarefas diárias em poses que correspondem à cultura da estatuária clássica, induzem a uma objectificação do corpo à medida que se estabelecem como imagens de desejo, exclusivas a um estado de intimidade.

Miguel Mesquita