Jérémy Pajeanc | SANS TOIT NI LOI

 

 

 

 

Sans Toit Ni Loi

“Assim como nos perguntamos a partir de quantas pedras se obtém um monte, (…) a partir de quantas provas começa um crime.”

Num contexto actual dividido entre a mundialização expansionista e o fechamento identitário erguem-se muralhas e gradeamentos em nome da segurança. Segurança? Esquecendo os direitos do Homem, acordos internacionais, como o direito ao auxílio político ou de guerra, desprezam-se os valores morais e éticos que definem a humanidade da nossa lei e dos nossos actos contemporâneos. A ideia de cerca e de muro são tão remotas quanto a ideia de fronteira.

Após a queda do muro de Berlim em 1989 a comunidade europeia julgava que caminharia para uma continuada libertação das fronteiras e das suas passagens, libertação da palavra, a partilha fraterna de culturas e identidades de uma Europa reunificada e que nunca voltaríamos a um fechamento claustrofóbico-ditatorial, julgávamos esse pensamento já obsoleto, petrificado num passado histórico turbulento de águas passadas. Em 2017 a Europa, entre outros, reforça e redesenha com vedações e arame farpado parte das suas fronteiras. Estaremos em pleno mito de Sísifo?

Jérémy Pajeanc

Tout le monde a tort à tour de rôle. Les uns d’avoir vu, les autres d’avoir fait.  

Yann Moix

 

Paulo Mendes

Trabalho de campo / Artist at work

Este artista não está no estúdio com o seu modelo, já o abandonou, o divórcio foi á muito consumado e vai agora a caminho do campo, não a caminhar solitariamente com o cavalete às costas e tintas de óleo na sacola para destrinçar as múltiplas implicações da luz e da sombra numa qualquer reprodução do real imaginado mas a conduzir numa auto-estrada em direcção a um parque industrial onde se situa temporariamente a sua oficina de trabalho.

Longe dos centros da lusitânia cosmopolita, está localizada a Ecosteel, uma empresa que começa agora um programa de residências artísticas, com o criador Jérémy Pajeanc, através do seu ramo ARTWORKSNa fábrica, onde operários trabalham para produzir riqueza, o artista transitoriamente produz trabalhos, obras, sobre esses apátridas, os refugiados. Neste regime paradoxal de fronteiras, politicas e laborais, não estamos num estado de inocência, mas num estado de sítio em que as certezas dão lugar às dúvidas. A arte como modo de acção, não de produção de valor material mas de produção de valor imaterial. A mostra dessa produção, em que a matéria-prima usada nas linhas de produção da fábrica é usada para enfatizar o naufrágio político da velha Europa, acontece agora na própria fábrica, nos locais de trabalho frequentados pelos outros operários que a ocupam diariamente. Nas salas, dessas casas, desses operários, nas nossas casas, estes desprotegidos, estes excluídos, estes desempregados, estes fantasmas, estão presentes às nossas mesas. Podemos virar a cara mas não vamos conseguir ver para lá dos vidros sujos, manchados, riscados a ácido, das nossas janelas políticas. Eles, essa entidade estatística, vagueiam lá longe, entre a ilha de Lesbos e Calais, entre o arame farpado erigido pelas democracias europeias e os novos improvisados campos de concentração para os controlar. Qual a relação entre os actuais métodos de manufactura e trabalho, de soberania e mobilidade e as noções de criatividade, arte e produção de conhecimento?