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Pressionando um objecto contra uma superfície, esvaziando o ar que os separa, forçamos o seu contacto e estabelecemos a semelhança. Como resultado desta acção, é possível que o papel de alumínio se liberte da função que normalmente lhe está destinada e se transforme numa superfície capaz de receber uma imagem. Deixar pousar partículas de madeiras sobre um objecto, fixa-las e repetir o processo, torna possível a criação de um novo corpo, denso e compacto. 

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Todos estes processo de construção de imagens e objectos têm como denominador comum o contacto directo com uma matéria, capaz de lhes dar forma e conteúdo, não colocando de parte a sua singularidade.

João Pedro Trindade 

 

Luís Araújo

O fundo e a forma e o fundo e a forma e o fundo.

“Não é nada fácil perceber as coisas pelo meio, e não de cima para baixo ou inverso, esquerda para a direita ou o contrário: tentem e verão como tudo muda. Não é fácil ver a erva nas coisas e nas palavras.” Gilles Deleuze

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É injusto escrever de forma apressada um texto sobre a acção do tempo. Ou talvez seja essa a forma mais ajustada de o fazer. Conheci primeiro o João Pedro Trindade e só depois a sua obra. Mas isso não é bem verdade, porque ele transporta-a consigo para todo o lado: na atenção que dá a materiais e texturas e na curiosidade respigadora com que olha para o que está à sua volta. É no entulho, parece-me, que ele se sente mais à vontade, explorando o que os outros deixaram para trás, soprando nova vida nesses restos, experimentando materiais e reacções entre eles, pressionando, descobrindo como a força – esse “contacto com o real” – os modifica. Como um ilusionista que se deixa surpreender pela sua própria ficção.

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A acumulação, o aproveitamento, o reaproveitamento são muitas vezes o ponto de partida, conservando e modelando os seus objectos, agindo rapidamente sobre eles ou deixando o tempo criar a sua marca. A sua robustez no ponto de partida transforma-se assim em fragilidade, simultâneamente esvaziados da sua função e preservados. Essas sucessivas dicotomias (esconder/revelar, interior/exterior, positivo/negativo, robusto/frágil) forçam-nos a reavaliar o primeiro propósito do objecto manipulado.

 

Explorar, partilhar, compreender e agir sobre os materiais mas deixar que nessa busca sejam os materiais a transformá-lo. Porque mais do que as questões que coloca o que é absolutamente cativante no trabalho do João Pedro Trindade é o modo como formula essas questões.

Luís Araújo