Disfarce, disfarce | José Capela

Carlos Arteiro, Guilherme de Sousa e Pedro Azevedo são os três artistas, estiveram os três em residência No Entulho – programa da Artworks –, e estão os três interessados na tomada de consciência. O resultado do seu trabalho é agora conjuntamente apresentado no Porto, na mala voadora, sob o título Disfarce, disfarce.

“(…) não estão desligados da realidade porque, para eles, a realidade é naturalmente não séria.”

Pier Paolo Pasolini, As Últimas Palavras de um Ímpio (Conversas com Jean Duflot), trad. Isabel St. Aubyn, Lisboa: Distri Editora (1985), p. 45.

O trabalho da dupla Guilherme de Sousa / Pedro Azevedo situa-se muitas vezes num território das artes performativas próximo do das artes visuais: narrativas feitas de movimento e imagem sem ingerências de texto, com um depuramento e um sentido cromático que lembram os recortes de Matisse, e que parecem radicar numa coisa pré-política: a ternura.

Neste Disfarce, disfarce., regressam aos dispositivos de interação com o público (como em Popper Non Popper de 2015, ou como em Horto de 2017, estreado na mala voadora), considerando desta vez a circunstância de estarem a produzir para uma exposição ou, mais genericamente, pensando a partir da ideia de “museu”. Propõem um trabalho com dois componentes. (1) Ao entrar num cubo cujo interior é espelhado, o público depara-se com a sua própria imagem. Trata-se de uma obra que se inscreve na tradição minimalista de interação entre obra e contexto, ou entre obra e observador, e ecoa obras da década de 1960 como os cubos espelhados de Robert Morris ou os efeitos perceptivos das salas de Dan Graham. Uma cenografia para o protagonismo de quem vê, que se vê face ao constrangimento de se ver a si próprio, e também face ao constrangimento físico causado pelo pavimento sobre o qual tem de deslocar-se. (2) Numa intervenção de natureza performativa, o público da exposição também é colocado perante o seu próprio reflexo, não em sentido literal, mas através do confronto com o comportamento de outros elementos do público, no qual ele poderá rever-se. Um espelho social.

Em qualquer dos casos, trata-se de dispositivos para o público se confrontar consigo mesmo – dispositivos para a tomada de consciência do público enquanto “público”.

Carlos Arteiro opera no âmbito da ficção. Transporta-nos para um lugar que não é aquele em que estamos, mas antes o lugar das personagens da commedia dellarte (voltando a fazer referência, na sua obra, ao teatro), e em particular de Arlecchino, através do olhar de Giorgio Agamben sobre Pulcinella. É Arlecchino que Arteiro representa nesta exposição, em imagens que, apesar de serem pintura, têm uma natureza ambígua, aparentando aquilo que associamos à fotografia e à realidade virtual. A representação de Arlecchino aufere assim de uma liberdade visual que é paralela à liberdade da própria personagem: o seu comportamento é livre por ser estranho à relação que habitualmente se estabelece entre consciência e representação social no quotidiano e, em particular, na política. É um comportamento libertariamente pré-político. Tal como Pasolini, Agamben faz uma leitura ideológica do humor e da graça, e identifica conexões entre filosofia e comédia que vão ao ponto de elas se confundirem. Face a esta possibilidade, a combinação da obra dos três artistas faz-nos regressar aos dispositivos da dupla Sousa/Azevedo e ver o público em frente aos espelhos, afinal, a deparar-se com a experiência da sua própria graça, ou com a experiência – política – de relacionar a sua possibilidade de graça e a consciência de si.

E, quando chegamos a esta identificação entre filosofia e comédia, parece-nos, ainda mais, que este projeto é mesmo certo para estar aqui, na mala voadora.


1) Pier Paolo Pasolini, As Últimas Palavras de um Ímpio (Conversas com Jean Duflot), trad. Isabel St. Aubyn, Lisboa: Distri Editora (1985), p. 45.

 (2) Hal Foster. The Return of the Real: The Avant-Garde at the End of the Century, Cambridge (Mass.) e London: The MT Press (1996).

(3) Giorgio Agamben, Pulcinella or Entertainment for Children, trad. Kevin Attell, London: Seagull Books (2019).