Intervalo | Hugo Canoilas

Uma residência artística numa fábrica, ainda que num contexto especializado – o programa de residências No Entulho, criado para artistas desenvolverem obras e projetos com os materiais, recursos e infra estruturas da Artworks, trouxe-me imediatamente a ideia de intervalo como qualidade inerente ao trabalho ali executado.

O intervalo na “máquina capitalista”, não acontece na pausa que fazemos para comer, ou sobretudo, verificar as últimas mensagens e postagens nas nossas redes sociais. O intervalo acontece com a paragem da máquina por aquele que se desloca à janela e contempla a paisagem, originando uma cesura no sentido real da produção fabril que põe termo – pelo menos momentaneamente – à contribuição para  o capitalismo cognitivo ou qualquer outra forma  de trabalho mais ou menos abstrato.

O intervalo na fábrica, é o prazer efetivo da interferência na máquina e produção capitalista. A ideia de intervalo raia imagens e memórias televisivas, do Maio de 68, revolução anarquista no Politécnico de Atenas em 73, PREC e, nos muitos filmes que foram feitos pela sedução que tal intervalo produz em nós. O lado selvagem desses movimentos foi-nos oferecido de novo, pelo intervalo dos  “verdadeiros  intelectuais” que, no sentido cunhado por Sartre em “Plea to intelectuals” (Um apelo aos intelectuais), devolveriam ao todo (às pessoas) algo que provinha desse todo (o mundo, as coisas no mundo e a vontade das pessoas no mundo). Os intelectuais foram desafiados para, primeiro, deixar-se levar pelo movimento selvagem de uma manifestação e depois num segundo momento oferecer ao todo  o seu “conhecimento técnico”  que filtrava com um intervalo  (de especialização e de tempo) a experiência vivida.

Observo as esculturas de Andreia Santana como parte do resultado de um intervalo, que se forma na interferência do trabalho de uma artista num contexto fabril  e vice-versa, colocando num plano tangível, os valores díspares que opõem a ideia de produção à ideia de experiência estética ou artística.

As esculturas de Santana, feitas como quem desenha sem um determinado fim não têm uma funcionalidade no sentido do contexto de uma linha de produção.Estas têm uma operatividade inerente à arte, tendo sido pensadas como silêncios e pausas que se prestam, para além da sua autonomia como esculturas, como plataformas para a interpretação e desenvolvimento de uma performance musical. 

Os desenhos, e as esculturas que daí advém, poder-se-ão afiliar a Cornelius  Cardew, o grande mestre da transformação visual das pautas, que conduziu a produção musical a novos paradigmas, tidos como “absurdos”, “não-musicais” ou “obtusos” e que, rapidamente, alargaram as possibilidades da música experimental da década de 70.  

A produção de Santana é, no entanto, distinta da de Cardew, porque não reclama, um conhecimento musical mas um conhecimento visual. Santana dá corpo aos momentos de silêncio. A ideia é marcar o intervalo, criar intervalo, num quotidiano cada vez mais operativo e funcional, que nos aliena. Este gesto exige uma determinada hipersensibilidade própria aos artistas, que lhes permite trabalhar aquém ou além da linguagem e do seu aprisionamento.

Há um espaço novo para as artes, que vem do feminismo e da ecologia – os dois parâmetros da vida não desenvolvidos por Marx, que nos permitem rever, redimensionar e transformar o sistema capitalista em que vivemos. A forma subtil destas novas manifestações em arte, tem que ver com uma revisão do valor do sensível  e respectiva transformação da experiência dos corpos, derrotando a opressão do racional no quotidiano.  

Na arte contemporânea e, sobretudo, nos artistas que atuam entre a arte e o cinema, ficou evidente que a arte não podia continuar num plano meramente óptico, passando os filmes  para um plano háptico. Esta transgressão do visual para o sensorial entra formalmente em consonância com  as novas formas de literacia que atuam, manipulando e manuseando imagens. A passagem do óptico, que tem ligação direta ao plano racional e às suas forças reativas, para o plano das sensações do corpo e das suas  forças interiores e afirmativas, agregam-se ao modo como hoje se procuram novas formas de empatia e uma especial atenção às micronarrativas, criando uma diferença entre a relação quantitativa da Inteligência Artificial (os computadores medem quantidades de qualidades nomeáveis) e a qualitativa que é inerente à experiência artística. Pensar e dar forma tridimensional é atuar dentro desta nova moldura de produção, em que novas coreografias das mãos e novas formas de relacionamento com a imagem estão a transformar as nossas subjetividades.

As escultura  de A.S.  são obras visuais que transgridem a sua visualidade e passam a sonoridade, entrando no corpo, para além do preconceito, como coisa etérea. Olhar para aquelas linhas que vazam espaço no espaço, é olhar para um intervalo entre o visual e a sensação sonora em potência ou experienciada, ou melhor para o silêncio em potência que constitui um dos momentos mais marcantes da história da música. As esculturas contém ainda o desejo ardente de transformação, que é a interrupção da velocidade que nos conduz para abismo. O intervalo operado por estas esculturas, no espaço e no tempo  – na ausência de ação e musicalidade, e na forma como, baixas em relação ao nosso olhar, nos colocam em modo introspectivo, são uma experiência háptica, que nos toca o corpo, suspendendo-o.